Estudando Português

COESÃO TEXTUAL – TEORIA

Quando lemos com atenção um texto bem construído, não nos perdemos por entre os enunciados que o constituem, nem perdemos a noção de conjunto. Com efeito, é possível perceber a conexão existente entre os vários segmentos de
um texto e compreender que todos estão interligados entre si.
A título de exemplificação do que foi dito, observe-se o texto que vem a seguir:

  É sabido que o sistema do Império Romano dependia da escravidão, sobretudo para a produção agrícola. É sabido ainda que a população escrava era recrutada principalmente entre prisioneiros de guerra.
  Em vista disso, a pacificação das fronteiras fez diminuir consideravelmente a população escrava.
  Como o sistema não podia prescindir da mão de obra escrava, foi necessário encontrar outra forma de manter inalterada essa população.

  Como se pode observar, os enunciados desse texto não estão amontoados caoticamente, mas estritamente interligados entre si: ao se ler, percebe-se que há conexão entre cada uma das partes.
  A essa conexão interna entre os vários enunciados presentes no texto dá-se o nome de coesão. Diz-se, pois, que
um texto tem coesão quando seus vários enunciados estão organicamente articulados entre si, quando há concatenação
entre eles.
  A coesão de um texto, isto é, a conexão entre os vários enunciados obviamente não é fruto do acaso, mas das relações de sentido que existem entre eles. Essas relações de sentido são manifestadas, sobretudo, por certa categoria de palavras, as quais são chamadas de conectivos ou elementos de coesão. Sua função no texto é exatamente a de pôr em evidência as várias relações de sentido que existem entre os enunciados. No caso do texto citado acima, pode-se observar a função de alguns desses elementos de coesão. A palavra ainda no primeiro parágrafo (“É sabido ainda que”...) serve para dar continuidade ao que foi dito anteriormente e acrescentar
outra informação: que o recrutamento de escravos era feito junto dos prisioneiros de guerra.
  O segundo parágrafo inicia-se com a expressão em vista disso, que estabelece uma relação de implicação causal
entre a informação anterior e a que vem a seguir: a pacificação das fronteiras diminui o fornecimento de escravos porque estes eram recrutados principalmente entre os prisioneiros de guerra.
O terceiro parágrafo inicia-se pelo conectivo como, que manifesta outra relação causal, isto é: foi necessário encontrar outra forma de fornecimento de escravos porque o sistema não podia prescindir deles.
São várias as palavras que, num texto, assumem a função de conectivo ou de um elemento de coesão:
- as preposições: a, ante, após, com, contra, de, desde, em, entre,   para, perante, por, sem, sob, sobre, trás.
            - as conjunções: que, para que, quando, embora, mas, e, ou etc.
            - os pronomes: ele, ela, seu, sua, este, esse, aquele, que, o qual etc.
            - os advérbios: aqui, aí, lá, assim etc.
  O uso adequado desses elementos de coesão confere unidade ao texto e contribui consideravelmente para a expressão clara das ideias. Para dar uma ideia da importância desses elementos na construção das frases e do texto.



1. Que é coesão?

Leia o texto a seguir completando mentalmente as lacunas


1. O papa João Paulo II disse ontem, dia de seu 77º aniversário, que seu desejo
2. é "ser melhor". ................. reuniu-se na igreja romana de Ant'Attanasio com
3. um grupo de crianças, uma das quais disse: "No dia do meu aniversário
4. minha mãe sempre pergunta o queeu quero.E você, o que quer? .................
5. respondeu: "Ser melhor". Outro menino perguntou a ..................... que
6. presente gostaria de ganhar neste dia especial. "A presença das crianças me
7. basta", respondeu ............................ . Em seus aniversários, ...............
8. costuma compartilhar um grande bolo, preparado por irmã Germana, sua
9. cozinheira polonesa, com seus maiores amigos, mas não sopra as velinhas,
10. pois este gesto não faz parte das tradições de seu país, a Polônia. Os
11. convidados mais freqüentes a compartilhar nesse dia a mesa com................
12. no Vaticano são o cardeal polonês André Marie Deskur e o engenheiro
13. Jerzy Kluger, um amigo judeu polonês de colégio. Com a chegada da
14. primavera, .............. parece mais disposto. .............. deve visitar o Brasil na
15. primeira quinzena de outubro. 


Agora complete as lacunas com
  • o aniversariante
  • O Pontífice
  • João Paulo II
  • O Sumo Pontífice
  • O Santo Padre
  • o Papa
     Como você pode constatar, a palavra "papa" foi substituída várias vezes pelas palavras e expressões acima indicadas. Essas substituições evitam a repetição pura e simples da mesma palavra e propiciam o desenvolvimento contínuo ou o encadeamento semântico do texto, na medida em que se recupera numa frase ou passagem um termo ou idéia presente em outra.
     O pronome "seu(s)" (linhas 1 e 7) também recupera semanticamente a expressão "papa João Paulo II", assim como "este gesto" recupera "sopra as velinhas"; "nesse dia", o "dia do aniversário do Papa".
     Assim, um texto não é uma unidade constituída por uma soma de sentenças ou por um amontoado caótico de palavras e frases. Os enunciados, os segmentos do texto estão estritamente interligados entre si; há conexão entre as palavras, entre as frases, entre os parágrafos e as diferentes partes. Há encadeamento semântico.
     Diz-se, pois, que um texto tem COESÃO quando seus vários elementos estão organicamente articulados entre si, quando há concatenação entre eles.

2. Mecanismos de coesão

A língua possui amplos recursos para realizar a coesão. Eis os principais.


2.1 Coesão por referência

Exemplo:
João Paulo II esteve em Porto Alegra.
Aqui, ele disse que a Igreja continua a favor do celibato.
Onde "aqui" retoma "Porto Alegre", e "ele" retoma "João Paulo II".
     Os elementos de referência não podem ser interpretados por si mesmos; remetem a outros itens do texto, necessários a sua interpretação.
     São elementos de referência os pronomes pessoais (ele,ela, o, a, lhe, etc.), possessivos (meu, teu, seu, etc.), demonstrativos (este, esse aquele, etc.) e os advérbios de lugar (aqui, ali, etc.).


2.2 Coesão por elipse

Exemplo:
João Paulo II esteve em Porto Alegre. Aqui, disse que a Igreja continua a favor do celibato.
     Onde = a João Paulo II, ou seja, o leitor, ao ler, ao ler o segmento B, se depara com o verbo disse e, para interpretar seu sujeito, tem que voltar ao segmento A e descobrir que quem disse foi João Paulo II.

2.3 Coesão lexical

     2.3.1 Coesão lexical por sinônimo

Exemplo:
João Paulo II esteve em Porto Alegre.
Na capital gaúcha, o papa disse que a Igreja continua a favor ....
Onde "Porto Alegre" = "capital gaúcha" e 'João Paulo II" = "papa"

     A coesão lexical permite àquele que escreve manifestar sua atitude em relação aos termos, Compare as versões:

João Paulo II esteve em Porto Alegre. Aqui, Sua Santidade disse que a Igreja ...
João Paulo II esteve ontem em Varsóvia. Lá, o inimigo do comunismo afirmou ...

     Rui Barbosa, na sua magistral conferência sobre Oswaldo Cruz, em 1917, nos dá lições acabadas da arte da sinonímia.

Santo Presente

(Zero Hora, 19/05/1997)

Para dizer febre amarela, por exemplo, empregou todas estas expressões sinônimas:vômito negro, a praga amarela, estigma desastroso, contágio brasileiro, o mesmo flagelo, germe amarílico, a tenaz endemia, a prega, a terrível doença, o contágio homicida, calamidade exterminada, a devoradora calamidade, a maligna enfermidade, essa desgraça, a terrível coveira, infecção xantogênica, esse contagio fatal ... nada menos que dezessete formas e recursos para evitar a repetição enfadonha.

Referindo-se aos ratos, eis a série por ele excogitada: rataria, rasteira e abjeta família, esses vilíssimos roedores, essa espécie roaz, ralé inumerável, raça insaciável dos murídeos.

Mencionando o fato da morte assim resolve Rui o problema da não repetição de termos: a cólera-mórbus deu morte ... a peste negra roubou 25 milhões de indivíduos à Europa ... dessa calamidade apenas escaparam um terço dos habitantes ... o número dos sepultados excede o dos sobreviventes ... de vinte mal se salvam duas pessoas ... no Hotel-Dieu expiram quinhentos ... para servirem de sepulcrário aos corpos que nos cemitérios já cabem ... Parisregistra cinqüenta, Londres cem mil óbitos ... A Itália perde a metade de sua população ... vinte cinco milhões, pelo menos, desaparecem ... se diz haver arrebatado ao gênero humano cem milhões de vidas. Onze recursos de sinonímia num trecho de 34 linhas apenas!

(LEITE, Ulhoa Cintra Marques. "Novo Manual de Redação e Estilo", Rio de Janeiro, 1953)


     A substituição de um nome próprio por um nome comum se processa muitas vezes mediante a antonomásia. Trata-se de um recurso que expressa um atributo inconfundível de uma pessoa, de uma divindade, de um povo, de um país ou de uma cidade. Veja os exemplos.
    Castro Alves - O Poeta dos Escravos
    Gonçalves Dias - O Cantor dos Índios
    José Bonifácio - O Patriarca da Independência
    Simon Bolívar - O Libertador
    Rui Barbosa - O Águia de Haia
    Jesus cristo - O Salvador, o nazareno, o Redentor
    Édipo - O Vencedor da Esfinge
    Átila - O Flagelo de Deus
    Aquiles - O Herói de Tróia
    D. Quixote - O Cavaleiro de Triste Figura
    Cuba - A Pérola das Antilhas
    Veneza - A rainha do Adriático
    Jerusalém - O Berço do Cristianismo
    Egito - O Berço dos Faraós
    Ásia - O Berço do Gênero Humano
    Leônidas - O Herói das Termópilas
    Sólon - O Legislador de Atenas
    Moisés - O Legislador dos Judeus
    Hipócrates - O Pai da Medicina
    Heródoto - O Pai da História
    José de Alencar - O Autor de Iracema
    Raimundo Correa - O Autor de As Pombas
    Vênus - A Deusa da Beleza
     2.3.2 Coesão lexical por hiperônimoe

     Muitas vezes, neste tipo de coesão, utilizamos sinônimos superordenados ou hiperônimos, isto é, palavras que correspondem ao gênero do termo a ser retomado.

Exemplo:
                        Gênero
    Mesa          ® móvel
    Faca          ® talher
    Termômetro ® instrumento
    Computador ® equipamento
    Enceradeira ® eletrodoméstico

Exemplo:

Acabamos de receber 30 termômetros clínicos.
Os instrumentos deverão ser encaminhados ao Departamento de Pediatria.

     2.3.3 Coesão lexical por repetição do mesmo item

Exemplo:

O papa viajou pelo Brasil.
O papa reuniu nas capitais grande multidão de admiradores.

2.4 Coesão por substituição

     A coesão por substituição consiste na colocação de um item num lugar de outro segmento.

Exemplo:

O papa ajoelhou-se. As pessoas também.
O papa é a favor do celibato. Mas eu não penso assim.
O papa ajoelhou-se. Todos fizeram o mesmo.

3. Observação de textos

     Melhor do que teorizar sobre o assunto, com definições e classificações, é OBSERVAR os textos, conforme convicção exposta no capítulo "Como desenvolver a competência textual", que embasa a proposta deste "Guia de Produção Textual". A melhor escola é a leitura inteligente de textos modelares.
3.1 Leia o texto a seguir completando mentalmente as lacunas.

Uma cocheira para dois

David Coimbra - (Zero Hora, 28/3/1996)

Algumas pessoas têm a sensibilidade de um cavalo. São poucas, porém. Nem todas demonstram tanta ternura quanto ...................... que se equilibram sobre quatro ferraduras. E às vésperas de um grande acontecimento do mundo ...... , como o GP Bento Gonçalves do próximo domingo, eles se tornam ainda mais dados a melindres, tais são os mimos que lhes dispensam cavalariços, proprietários, jóqueis e treinadores. ........... são carentes. Nada pior para eles do que a solidão. Precisam de uma companhia. Qualquer uma. Outros ......... , se possível. Não sendo, se contentam com uma ovelha, um galo-de-briga, até um radinho de pilha. Em último caso, serve um espelho para lhes dar a ilusão de que não estão sós no escuro da cocheira. O ........ inglês Dani Angeli, três anos de idade, se afeiçoou especialmente a uma .................. que vive no Grupo de Cocheiras Clóvis Dutra, na Vila Hípica do Cristal.

Quando ............ não está por perto, ................ fica inquieto. Não dorme sem ela. Uma noite longe da ............... significa uma noite de insônia, de ranger nostálgico de dentes e patadas nervosas na forragem que lhe serve como leito. Ao raiar da manhã, o cavalariço o encontra irreconhecível, estressado, incapaz de enfrentar um dia de trabalho ............... e a ovelhinha dormem juntos, passeiam diariamente lado a lado e até quando ele viaja para disputar alguma prova fora do Estado ela precisa ir junto. Sem .................... Dani Angeli não é ninguém.

3.2 Agora observe os mecanismos de coeão.

     3.2.1 - Coesão lexical por sinônimos
  • Complete as lacunas com
      - a companheira encaracolada
      - a amiga lanuda
      - ovelhinha
      que substituem a palavra "ovelha".
  • Complete as lacunas com
      - puro sangue
      - esses espíritos suscetíveis
      - eqüino
      que substituem a palavra "cavalo(s)".

     3.2.2 - Coesão lexical por repetição do mesmo item

  • Complete as lacunas com
      - cavalos
      - cavalos
      - Dani Angeli
  • Que efeito estilístico decorre da substituição de "ovelha" por "ovelhinha", "a companheira encaracolada" e "a amiga lanuda"? Em outras palavras, que atitude o autor do texto expressa mediante tais substituições?
     3.2.3 - Coesão lexical por referência

  • Circule os pronomes que se referem a "ovelha".
  • Sublinhe os pronomes que se referem a "cavalo".

     3.2.4 - Coesão por elipse

     * Identifique os elipses em
    - Precisam de uma companhia
    - ... se contentam com uma ovelha ...
    - ... não estão sós no escuro da cocheira
    - Não dormem sem ela
    - ... passeiam diariamente lado a lado

3.3 Complete mentalmente as lacunas do texto a seguir

Duas trajetórias nada edificantes

Augusto Nunes - (Zero Hora, 11/04/1996)

Não são poucas as semelhanças entre Alphonse Capone e Frnando Collor de Mello - a começar pelo prenome inspirado no mesmo antropônimo originário do Latim. ............ nasceram em famílias de imigrantes ........ teve ascendência italiana, o ............... descende de alemães, ... sempre apreciaram charutos, noitadas alegres, uísque, verões em Miami, ternos bem cortados, companhias suspeitas e largos espaços na imprensa.

............... quanto .................... chegaram ao poder muito jovens. E dele acabaram apeados por excesso de confiança: certos de que as asas da impunidade estariam eternamente abertas sobre seus crimes, não trataram com o devido zelo da remoção de todas as pistas.

Mais de 60 anos depois da prisão de Al Capone, Fernando Collor acaba de tropeçar na mesma armadilha que destruiria a carreira e a fortuna do ............. .

Dono de um prontuário escurecido por assassinatos, seqüestros, roubos e outras violências, ....... foi trancafiado num catre pela prática de um delito bisonho para um .................. do seu calibre: sonegação de impostos. Dono de uma folha corrida pontilhada de proezas nada edificantes, ............... enredou-se nesta semana na malha fina da Receita Federal. Depois de ter driblado acusações bem mais pesadas, ................ irá para a cadeia se não pagar R$ 8 milhões de impostos atrasados. Caso consiga o dinheiro, seguirá em liberdade. Mas terá fornecido outra evidência de que saiu do Palácio do Planalto muito mais rico do que era quando ali chegou.



3.4 Agora, complete as lacunas com

    - o primeiro
    - o segundo
    - ambos
    - um e outro
    - Tanto o rei do crime em Chicago
    - o ex-presidente
    - Capone
    - Collor
    - legendário Scarface
    - gânster

3.5 Observe, finalmente, o terceiro texto completando as lacunas com

    - Ribamar
    - O autor de "Marimbondos de Fogo"
    - ex-presidente da República
    - as beldades
Erva e marimbondos

(Zero Hora, 18/04/1996)

A rainha e princesas da Feira Nacional do Chimarrão, de Venâncio Aires, animaram a manhã do presidente do Senado, José Sarney, ontem.

.................... é convidado especial da Fenachim, que se realiza de 3 a 12 de maio.

Ciceroneadas pelo governador Antônio Britto, ................. entregaram um pacote de boa erva ao .......... .

Não será de grande proveito. Natural do Maranhão e eleito pelo Amapá, ...................... está mais acostumado com água de coco.


Fonte: texto extraído do site da universidade puc-rs puc-rs



1. O texto argumentativo

     COMUNICAR não significa apenas enviar uma mensagem e fazer com que nosso ouvinte/leitor a receba e a compreenda. Dito de uma forma melhor, podemos dizer que nós nos valemos da linguagem não apenas para transmitir idéias, informações. São muito freqüentes as vezes em que tomamos a palavra para fazer com que nosso ouvinte/leitor aceite o que estamos expressando (e não apenas compreenda); que creia ou faça o que está sendo dito ou proposto.

     Comunicar não é, pois, apenas um fazer saber, mas também um fazer crer, um fazer fazer. Nesse sentido, a língua não é apenas um instrumento de comunicação; ela é também um instrumento de ação sobre os espíritos, isto é, uma estratégia que visa a convencer, a persuadir, a aceitar, a fazer crer, a mudar de opinião, a levar a uma determinada ação.

     Assim sendo, talvez não se caracterizaria em exagero afirmarmos que falar e escrever é argumentar.

     TEXTO ARGUMENTATIVO é o texto em que defendemos uma idéia, opinião ou ponto de vista, uma tese, procurando (por todos os meios) fazer com que nosso ouvinte/leitor aceite-a,creia nela.

     Num texto argumentativo, distinguem-se três componentes: a tese, os argumentos e as estratégias argumentativas.

     TESE, ou proposição, é a idéia que defendemos, necessariamente polêmica, pois a argumentação implica divergência de opinião.

     A palavra ARGUMENTO tem uma origem curiosa: vem do latim ARGUMENTUM, que tem o tema ARGU , cujo sentido primeiro é "fazer brilhar", "iluminar", a mesma raiz de "argênteo", "argúcia", "arguto".

     Os argumentos de um texto são facilmente localizados: identificada a tese, faz-se a pergunta por quê? (Ex.: o autor é contra a pena de morte (tese). Porque ... (argumentos).

     As ESTRATÉGIAS não se confundem com os ARGUMENTOS. Esses, como se disse, respondem à pergunta por quê (o autor defende uma tese tal PORQUE ... - e aí vêm os argumentos).

     ESTRATÉGIAS argumentativas são todos os recursos (verbais e não-verbais) utilizados para envolver o leitor/ouvinte, para impressioná-lo, para convencê-lo melhor, para persuadi-lo mais facilmente, para gerar credibilidade, etc.

     Os exemplos a seguir poderão dar melhor idéia acerca do que estamos falando.

     A CLAREZA do texto - para citar um primeiro exemplo - é uma estratégia argumentativa na medida em que, em sendo claro, o leitor/ouvinte poderá entender, e entendo, poderá concordar com o que está sendo exposto. Portanto, para conquistar o leitor/ouvinte, quem fala ou escreve vai procurar por todos os meios ser claro, isto é, utilizar-se da ESTRATÉGIA da clareza. A CLAREZA não é, pois, um argumento, mas é um meio (estratégia) imprescindível, para obter adesão das mentes, dos espíritos.

     O emprego da LINGUAGEM CULTA FORMAL deve ser visto como algo muito es-tra-té-gi-co em muitos tipos de texto. Com tal emprego, afirmamos nossa autoridade (= "Eu sei escrever. Eu domino a língua! Eu sou culto!") e com isso reforçamos, damos maior credibilidade ao nosso texto. Imagine, estão, um advogado escrevendo mal ... ("Ele não sabe nem escrever! Seus conhecimentos jurídicos também devem ser precários!").

     Em outros contextos, o emprego da LINGUAGEM FORMAL e até mesmo POPULAR poderá ser estratégico, pois, com isso, consegue-se mais facilmente atingir o ouvinte/leitor de classes menos favorecidas.

     O TÍTULO ou o INÍCIO do texto (escrito/falado) devem ser utilizados como estratégias ... como estratégia para captar a atenção do ouvinte/leitor imediatamente. De nada valem nossos argumentos se não são ouvidos/lidos.

     A utilização de vários argumentos, sua disposição ao longo do texto, o ataque às fontes adversárias, as antecipações ou prolepses (quando o escritor/orador prevê a argumentação do adversário e responde-a), a qualificação das fontes, a utilização da ironia, da linguagem agressiva, da repetição, das perguntas retóricas, das exclamações, etc. são alguns outros exemplos de estratégias. 

2. A estrutura de um texto argumentativo

2.1 A argumentação formal

     A nomenclatura é de Othon Garcia, em sua obra "Comunicação em Prosa Moderna".

     O autor, na mencionada obra, apresenta o seguinte plano-padrão para o que chama de argumentação formal: 
  1. Proposição (tese): afirmativa suficientemente definida e limitada; não deve conter em si mesma nenhum argumento.
  2. Análise da proposição ou tese: definição do sentido da proposição ou de alguns de seus termos, a fim de evitar mal-entendidos.
  3. Formulação de argumentos: fatos, exemplos, dados estatísticos, testemunhos, etc.
  4. Conclusão.

     Observe o texto a seguir, que contém os elementos referidos do plano-padrão da argumentação formal.

Gramática e desempenho Lingüístico

  1. Pretende-se demonstrar no presente artigo que o estudo intencional da gramática não traz benefícios significativos para o desempenho lingüístico dos utentes de uma língua.
  2. Por "estudo intencional da gramática" entende-se o estudo de definições, classificações e nomenclatura; a realização de análises (fonológica, morfológica, sintática); a memorização de regras (de concordância, regência e colocação) - para citar algumas áreas. O "desempenho lingüístico", por outro lado, é expressão técnica definida como sendo o processo de atualização da competência na produção e interpretação de enunciados; dito de maneira mais simples, é o que se fala, é o que se escreve em condições reais de comunicação.
  3. A polêmica pró-gramática x contra gramática é bem antiga; na verdade, surgiu com os gregos, quando surgiram as primeiras gramáticas. Definida como "arte", "arte de escrever", percebe-se que subjaz à definição a idéia da sua importância para a prática da língua. São da mesma época também as primeiras críticas, como se pode ler em Apolônio de Rodes, poeta Alexandrino do séc.II ª C.:

    "Raça de gramáticos, roedores que ratais na musa de outrem, estúpidas lagartas que sujais as grandes obras, ó flagelo dos poetas que mergulhais o espírito das crianças na escuridão, ide para o diabo, percevejos que devorais os versos belos".
  4. Na atualidade, é grande o número de educadores, filólogos e lingüistas de reconhecido saber que negam a relação entre o estudo intencional da gramática e a melhora do desempenho lingüístico do usuário. Entre esses especialistas, deve-se mencionar o nome do Prof. Celso Pedro Luft com sus obra "Língua e liberdade: por uma nova concepção de língua materna e seu ensino" (L&PM, 1995). Com efeito, o velho pesquisar apaixonado pelos problemas da língua, teórico de espírito lúcido e de larga formação lingüística, reúne numa mesma obra convincente fundamentação para seu combate veemente contra o ensino da gramática em sala de aula. Por oportuno, uma citação apenas:

    "Quem sabe, lendo este livro muitos professores talvez abandonem a superstição da teoria gramatical, desistindo de querer ensinar a língua por definições, classificações, análises inconsistentes e precárias hauridas em gramáticas. Já seria um grande benefício". (p. 99)
  5. Deixando-se de lado a perspectiva teórica do Mestre, acima referida suponha-se que se deva recuperar lingüisticamente um jovem estudante universitário cujo texto apresente preocupantes problemas de concordância, regência, colocação, ortografia, pontuação, adequação vocabular, coesão, coerência, informatividade, entre outros. E, estimando-lhe melhoras, lhe fosse dada uma gramática que ele passaria a estudar: que é fonética? Que é fonologia? Que é fonemas? Morfema? Qual é coletivo de borboleta? O feminino de cupim? Como se chama quem nasce na Província de Entre-Douro-e-Minho? Que é oração subordinada adverbial concessiva reduzida de gerúndio? E decorasse regras de ortografia, fizesse lista de homônimos, parônimos, de verbos irregulares ... e estudasse o plural de compostos, todas regras de concordância, regências ... os casos de próclise, mesóclise e ênclise. E que, ao cabo de todo esse processo, se voltasse a examinar o desempenho do jovem estudante na produção de um texto. A melhora seria, indubitavelmente, pouco significativa; uma pequena melhora, talvez, na gramática da frase, mas o problema de coesão, de coerência, de informatividade - quem sabe os mais graves - haveriam de continuar. Quanto mais não seja porque a gramática tradicional não dá conta dos mecanismos que presidem à construção do texto.
  6. Poder-se-á objetar que o ilustração de há pouco é apenas hipotética e que, por isso, um argumento de pouco valor. Contra argumentar-se-ia dizendo que situação como essa ocorre de fato na prática. Na verdade, todo o ensino de 1° e 2° graus é gramaticalista, descritivista, definitório, classificatório, nomenclaturista, prescritivista, teórico. O resultado? Aí estão as estatísticas dos vestibulares. Valendo 40 pontos a prova de redação, os escores foram estes no vestibular 1996/1, na PUCRS: nota zero: 10% dos candidatos, nota 01: 30%; nota 02: 40%; nota 03: 15%; nota 04: 5%. Ou seja, apenas 20% dos candidatos escreveram um texto que pode ser considerado bom.
  7. Finalmente pode-se invocar mais um argumento, lembrando que são os gramáticos, os lingüistas - como especialistas das línguas - as pessoas que conhecem mais a fundo a estrutura e o funcionamento dos códigos lingüísticos. Que se esperaria, de fato, se houvesse significativa influência do conhecimento teórico da língua sobre o desempenho? A resposta é óbvia: os gramáticos e os lingüistas seriam sempre os melhores escritores. Como na prática isso realmente não acontece, fica provada uma vez mais a tese que se vem defendendo.
  8. Vale também o raciocínio inverso: se a relação fosse significativa, deveriam os melhores escritores conhecer - teoricamente - a língua em profundidade. Isso, no entanto, não se confirma na realidade: Monteiro Lobato, quando estudante, foi reprovado em língua portuguesa (muito provavelmente por desconhecer teoria gramatical); Machado de Assis, ao folhar uma gramática declarou que nada havia entendido; dificilmente um Luis Fernando Veríssimo saberia o que é um morfema; nem é de se crer que todos os nossos bons escritores seriam aprovados num teste de Português à maneira tradicional (e, no entanto eles são os senhores da língua!).
  9. Portanto, não há como salvar o ensino da língua, como recuperar lingüisticamente os alunos, como promover um melhor desempenho lingüístico mediante o ensino-estudo da teoria gramatical. O caminho é seguramente outro.


    Gilberto Scarton


     Eis o esquema do texto em seus quatro estágios:

  • Primeiro estágio: primeiro parágrafo, em que se enuncia claramente a tese a ser defendida.
  • Segundo estágio: segundo parágrafo, em que se definem as expressões "estudo intencional da gramática" e "desempenho lingüístico", citadas na tese.
  • Terceiro estágio: terceiro, quarto, quinto, sexto, sétimo e oitavo parágrafos, em que se apresentam os argumentos.

    Terceiro parágrafo: parágrafo introdutório à argumentação.
    Quarto parágrafo: argumento de autoridade.
    Quinto parágrafo: argumento com base em ilustração hipotética.
    Sexto parágrafo: argumento com base em dados estatísticos.
    Sétimo e oitavo parágrafo: argumento com base em fatos.
  • Quarto estágio: último parágrafo, em que se apresenta a conclusão.
2.2 A argumentação informal

     A nomenclatura também é de Othon Garcia, na obra já referida.

     A argumentação informal apresenta os seguintes estágios:
    1. Citação da tese adversária
    2. Argumentos da tese adversária
    3. Introdução da tese a ser defendida
    4. Argumentos da tese a ser defendida
    5. Conclusão
     Observe o texto exemplar de Luís Alberto Thompson Flores Lenz, Promotor de Justiça.


Considerações sobre justiça e eqüidade

  1. Hoje, floresce cada vez mais, no mundo jurídico a acadêmico nacional, a idéia de que o julgador, ao apreciar os caos concretos que são apresentados perante os tribunais, deve nortear o seu proceder mais por critérios de justiça e eqüidade e menos por razões de estrita legalidade, no intuito de alcançar, sempre, o escopo da real pacificação dos conflitos submetidos à sua apreciação.
  2. Semelhante entendimento tem sido sistematicamente reiterado, na atualidade, ao ponto de inúmeros magistrados simplesmente desprezarem ou desconsiderarem determinados preceitos de lei, fulminando ditos dilemas legais sob a pecha de injustiça ou inadequação à realidade nacional.
  3. Abstraída qualquer pretensão de crítica ou censura pessoal aos insignes juízes que se filiam a esta corrente, alguns dos quais reconhecidos como dos mais brilhantes do país, não nos furtamos, todavia, de tecer breves considerações sobre os perigos da generalização desse entendimento.
  4. Primeiro, porque o mesmo, além de violar os preceitos dos arts. 126 e 127 do CPC, atenta de forma direta e frontal contra os princípios da legalidade e da separação de poderes, esteio no qual se assenta toda e qualquer idéia de democracia ou limitação de atribuições dos órgãos do Estado.
  5. Isso é o que salientou, e com a costumeira maestria, o insuperável José Alberto dos Reis, o maior processualista português, ao afirmar que: "O magistrado não pode sobrepor os seus próprios juízos de valor aos que estão encarnados na lei. Não o pode fazer quando o caso se acha previsto legalmente, não o pode fazer mesmo quando o caso é omisso".
  6. Aceitar tal aberração seria o mesmo que ferir de morte qualquer espécie de legalidade ou garantia de soberania popular proveniente dos parlamentos, até porque, na lúcida visão desse mesmo processualista, o juiz estaria, nessa situação, se arvorando, de forma absolutamente espúria, na condição de legislador.
  7. A esta altura, adotando tal entendimento, estaria institucionalizada a insegurança social, sendo que não haveria mais qualquer garantia, na medida em que tudo estaria ao sabor dos humores e amores do juiz de plantão.
  8. De nada adiantariam as eleições, eis que os representantes indicados pelo povo não poderiam se valer de sua maior atribuição, ou seja, a prerrogativa de editar as leis.
  9. Desapareceriam também os juízes de conveniência e oportunidade política típicos dessas casas legislativas, na medida em que sempre poderiam ser afastados por uma esfera revisora excepcional.
  10. A própria independência do parlamento sucumbiaria integralmente frente à possibilidade de inobservância e desconsideração de suas deliberações.
  11. Ou seja, nada restaria, de cunho democrático, em nossa civilização.
  12. Já o Poder Judiciário, a quem legitimamente compete fiscalizar a constitucionalidade e legalidade dos atos dos demais poderes do Estado, praticamente aniquilaria as atribuições destes, ditando a eles, a todo momento, como proceder.
  13. Nada mais é preciso dizer para demonstrar o desacerto dessa concepção.
  14. Entretanto, a defesa desse entendimento demonstra, sem sombra de dúvidas, o desconhecimento do próprio conceito de justiça, incorrendo inclusive numacontradictio in adjecto.
  15. Isto porque, e como magistralmente o salientou o insuperável Calamandrei, "a justiça que o juiz administra é, no sistema da legalidade, a justiça em sentido jurídico, isto é, no sentido mais apertado, mas menos incerto, da conformidade com o direito constituído, independentemente da correspondente com a justiça social".
  16. Para encerrar, basta salientar que a eleição dos meios concretos de efetivação da Justiça social compete, fundamentalmente, ao Legislativo e ao Executivo, eis que seus membros são indicados diretamente pelo povo.
  17. Ao Judiciário cabe administrar a justiça da legalidade, adequando o proceder daqueles aos ditames da Constituição e da Legislação.

Luís Alberto Thompson Flores Lenz


     Eis o esquema do texto em seus cinco estágios;
  • Primeiro estágio: primeiro parágrafo, em que se cita a tese adversária.
  • Segundo estágio: segundo parágrafo, em que se cita um argumento da tese adversária "... fulminando ditos dilemas legais sob a pecha de injustiça ou inadequação à realidade nacional".
  • Terceiro estágio: terceiro parágrafo, em que se introduz a tese a ser defendida.
  • Quarto estágio: do quarto ao décimo quinto, em que se apresentam os argumentos.
  • Quinto estágio:os últimos dois parágrafos, em que se conclui o texto mediante afirmação que salienta o que ficou dito ao longo da argumentação.
Fonte: texto extraído do site da universidade puc-rs pucrs

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