O Canário


Minha releitura, somente para manter a prática de um conto famoso que li ontem. E também aproveitando o gancho do conto da Cristina Gaspar.
Um conto inédito sobre a pandemia.




O Canário 
Um conto escrito por Waldryano



Minha vida, como posso sobreviver. Só quarenta anos. Quarentena. É demais para a minha cabeça o silêncio de uma casa, preciso respirar. Entretanto, até mesmo o respirar não é tão aceitável. Afinal, máscaras sufocam. E gaiolas prendem. Deste modo.

Foi assim que eu o conheci, estava a esparecer, mesmo sem poder, passeando em uma rua deserta, poucas lojas abertas, somente as essenciais. Um agro é algo essencial. Então, foi neste lugar que ao passar, o vi.

Estava preso tal como eu na minha máscara. Era belo, cantava. Olhava para o seu horizonte cantando. Pensei assim: "— Te quero!"

O meu querer era egoísta. Um pássaro com sua jovialidade e plumagem de um amarelo vívido ficaria bem na minha sacada. A tristeza de uma quarentena sem ninguém, seria substituída por um companheiro fiel e verdadeiro.

Perguntei ao dono quanto era o preço. A venda casada de sempre a gaiola e o pássaro. Ele foi para o depósito buscar o alpiste. E ele me olhou e disse:

— Irás me levar?

Olhei para os lados. Procurando quem falava, certamente não era um pássaro, como poderia?

— Ei, rapaz estou falando com você, já estou entediado de olhar para estas paredes, preciso de mais espaço. Aquele gato não para de miar, o cachorro fica a latir. Não aguento mais ficar aqui preso me leve!

O dono do Agro voltou com o pacote de alpiste. Ele me analisou e viu um fio de suor cair pela têmpora e perguntou:

— Esta tudo bem contigo?

Respondi, rapidamente:

— Sim, sim. Peguei a gaiola, o pássaro e o alpiste. O homem pediu para eu passar álcool em gel na mão. Não entendi, este desespero de passar álcool em gel, no caso daquele estabelecimento o dono obrigava colocar na saída do local. Voltando de modo rápido para a minha casa não encontrava ninguém, realmente a minha saída parecia totalmente desnecessária.

— Mas quem aguenta? Confesso que no caminho olhava para a gaiola tentando compreender o porquê daquela fala estranha e sem nexo. Não ouvi fala, e sim um tentar cantar do canário assustado.

Quando dentro do carro, o guarda averiguou a placa, era a permitida para o rodízio a impar, tudo certo, mediu minha temperatura, realmente não estava com febre. Olhei para trás no banco e o pássaro continuava quieto. 

Na portaria o seu Jorge, zelador e observador disse:

— Morador novo!

Saí do carro, peguei a gaiola com o pássaro e o pacote de alpiste.

Antes de subir para o meu andar, o zelador veio com mais álcool em gel, e relembrou me que precisava arrumar a máscara.
Depois de deixá-lo, observei que o zeloso foi limpar tudo que eu tocara.

No corredor, a senhora que não lembro o nome, abriu rapidamente a porta, ao observar que não era o possível entregador que esperava fechou se para dentro do seu apartamento. Senti o barulho, e o pássaro também se agitou. Falei assim:

— Calma sua casa é logo ali.

Confesso que esperei dialogar com ele de novo. Pareceu-me real a nossa conversa anterior, estávamos sozinhos, ele sem problema nenhum poderia concordar comigo e dizer: "Velha chata", mas nada, eram somente piados e um pular de puleirinho ao puleirinho. Já estava em casa.

Entrei deixei o pacote de alpiste no sofá, e a gaiola na mesa, precisava encontrar o local correto para o novo morador. Abri as janelas, o cheiro de mofo impregnava o ambiente. Pensei:

"— Posso deixá-lo aqui na cozinha, o lugar mais habitado da casa." Neste instante lembrei que precisava perder a minha barriga. 

Foi a decisão mais acertada. Com furadeira em mãos fiz a colocação do parafuso. Quando escutou o barulho o pássaro se agitava assustado. Vi que lhe faltava água, fui lá e coloquei. Ao terminar e posicioná-lo na parede, enfim, fui fazer algo para comer.

A água fervia, olhei o pássaro que ficou quieto em todo o tempo. Eu pensava, que loucura da minha parte:  "— Um canário, seria ele um cantor, realmente?" Não era silvestre, pois tinha um anel de identificação na pata.

Coloquei o macarrão no prato e comecei a brincar com a comida, olhava de modo curioso para o pássaro. Então o diálogo começou.

— Nossa, amigo, sua casa cheira a mofo. E não acredito que vai me deixar neste lugar.

Agora prometi para mim mesmo que não iria respondê-lo afinal, era fruto da minha imaginação tudo aquilo.

— Que foi, ficou mudo, converse comigo, não me tirou daquele Agro para viver neste isolamento e ainda cheirando a mofo.
Vencido pela situação perguntei ao pássaro.

— Tudo bem onde quer ficar?

— Claro que é na tua sacada! Que ideia, deixar-me neste local? Por qual razão? Sou um pássaro preciso de ar livre, e fiquei vários meses dentro daquela loja, necessito ver o azul do céu e o frescor das manhãs. Tem gato aqui perto?

Ri da situação e respondi:

— Não, não tem.

Ele mexia o bico de modo convincente, era mesmo um pássaro falante. Não estava louco.

Fui à sacada, fiz o furo, ele pulava desesperado, tudo normal a um pássaro, coloquei ele na sacada em um local onde ele poderia ver o céu azul e que se chovesse não o molharia. Resolvido a situação.
Perguntei-lhe.

— Esta bom?

Desta vez, o canário voltou a sua canarisse de sempre, cantando e piando, um canto de um pássaro feliz. Nada de fala. Eu precisava dormir, era sem dúvida o cansaço do dia a dia.

Depois de tomar um remédio para dormir, o dia acordou, o céu estava azul, as pessoas estavam nas suas casas e o novo morador do meu apartamento certamente estaria na minha sacada. Como imaginava estar.

— Que nada! A gaiola estava aberta. Provavelmente na hora que coloquei a água deixei mal fechada. Inevitável voltaria a minha solidão habitual.

Quando fiz a minha, vídeo chamada diária com a mãe, a falta de assunto fez eu contar do pássaro. E confesso que até pensei em comentar do diálogo irreverente que tive. Refiz meus pensamentos, era algo que precisava levar para o túmulo.

Duas semanas se passaram, e a minha esperança ao ver a sacada era de estar novamente com o companheiro que outrora tive aqueles diálogos.

Liberaram passear no parque. Foi coisa que fiz no mesmo instante. Mesmo com a máscara sufocante, o colesterol alto e uma pança para perder fizeram-me retornar a ser “fitness”.

Ao acelerar o passo sozinho em uma árvore, estava o belo canário. Parei e fiquei a olhar. Sem dúvida era ele. 

Continuei a minha caminhada como se nada tivesse observado. 

Ele bateu asas e foi na árvore a frente.

— Não vai me dar bolas só porque bati asas e voei?

Ignorei precisava tomar água, não era comigo, estava normal e aquilo era uma fantasia louca da minha cabeça.

 — Preciso te agradecer, você me trouxe a liberdade, tirou-me daquele local que estava me matando, livrou-me daquele gato insuportável e fez eu ver o céu azul novamente. 

Disse-lhe assim:

— Tudo bem, agora deixe-me com a minha caminhada, tive o meu prejuízo com você, agora precisarei se livrar daquela gaiola.

O pássaro voltou ao seu normal, cantou e voou. Nunca mais o vi. Nunca contei meu diálogo para ninguém.

(Escrita corrida, sem revisão.)
(Primeira revisão.)


Agora terminado, posso contar, que é uma releitura do Conto: "Ideias de Canário, do Machado de Assis", neste, trabalhei o isolamento social atual que aprisiona tal qual um canário dentro de uma gaiola. Para manter a prática. Também me baseei no conto da Cristina Gaspar, onde há uma espécie de realismo fantástico, tal qual neste.
 
Conto da Cristina Gaspar Macaco Branco <leia aqui>
Conto do Machado de Assis, Ideias de Canário <leia aqui>

Revisão, considerações:

Confesso que sempre escrevi contos aqui de modo corrido, quando vem a ideia sento e escrevo somente. Depois volto com calma leio e releio e vou aparando as arestas. Mas tempos atrás recebi um comentário um tanto quanto grosseiro de um usuário. Não vou citá-lo, pois não posso ser grosso quanto ele. Todavia não escrever no escopo do meu texto o que me incomodou faz eu ficar triste, logo, tenha um pouquinho de paciência que o raciocínio é bom e a revisão aqui citada, também se faz na arte de escrever um texto.

Primeiro: Meu principal vício de linguagem na escrita sem dúvidas é o gerúndio, meu modo de escrever vem muito da língua falada, e como diria Fernanda montenegro e o professor Paschoale. Suma com este gerúndio daí:
Gerúndio é: "Falando, cantando, cagando" essas coisas.

Segundo: Me deixou ou deixou-me? Eis a questão... Li que deslocar o pronome "me" é um erro gramatical. Logo estou sempre tentando não deslocar. Meu norte para isto são as leituras de textos discursivos da internet. Tal como o G1 e a CNN que leio e realmente não vejo o: "Me deixou" deste modo entendo que é um erro e sempre que possível volto e corrijo isto. Citado aqui o meu vício de linguagem com o pronome obliquo, mas na minha revisão aqui do texto: O Canário, tive dificuldades com o pronome átono. 
 Então:


Abro uma aspas aqui para você leitor ver o quão é dificil gabaritar o português, mesmo tendo o apreço pela NC.

A acentuação das formas verbais ligadas a pronomes pessoais oblíquos átonos em posição enclítica causa muitas dúvidas entre os falantes. A ênclise não é a forma de colocação pronominal mais usada pelos falantes, que privilegiam o uso da próclise. Assim, o seu uso não aparece como algo natural, com construções frásicas usadas diariamente, mas sim como algo estranho, pertencente a uma linguagem muito formal. 
As formas verbais terminadas em -r, -s ou -z podem ser ou não acentuadas quando ligadas a pronomes oblíquos átonos, que assumem as formas lo, la, los, las.
Ama-lo ou amá-lo? Devolve-lo ou devolvê-lo? Deixa-lo ou deixá-lo?
Amá-lo e ama-lo, devolvê-lo e devolve-lo, deixá-lo e deixa-lo são construções corretas, mas que se referem a formas verbais diferentes, que devem ser usadas em situações diferentes, apresentando pronuncias diferentes.
Amá-lo é a junção do pronome oblíquo átono o à forma do verbo amar no infinitivo: amar + o = amá-lo. A sílaba tônica é má: aMÁ-lo.
Ama-lo é a junção do pronome oblíquo átono o à forma do verbo amar na 2.ª pessoa do singular o presente do indicativo: amas + o = ama-lo. A sílaba tônica é o primeiro a: Ama-lo.
Essa diferença na acentuação da forma no infinitivo e da forma na 2.ª pessoa do singular do presente do indicativo pode ser estabelecida entre diversos verbos.

Amá-lo e ama-lo
Amá-lo = amar o
    Mariana irá amar Lucas para sempre.
    Mariana irá amá-lo para sempre.
Ama-lo = amas o
    Tu amas o Lucas, não é Mariana?
    Tu ama-lo, não é Mariana?
Devolvê-lo e devolve-lo
Devolvê-lo = devolver o
    Você vai devolver o dinheiro?
    Você vai devolvê-lo?
Devolve-lo = devolves o 
    Tu devolves o dinheiro quando?
    Tu devolve-lo quando?
Deixá-lo e deixa-lo
Deixá-lo = deixar o
    Vou deixar o cabelo crescer muito.
    Vou deixá-lo crescer muito.
Deixa-lo = deixas o
    Tu deixas o cabelo crescer muito?
    Tu deixa-lo crescer muito?
Escrevê-lo e escreve-lo
Escrevê-lo = escrever o
    Luísa vai escrever o resumo da obra.
    Luísa vai escrevê-lo.
Escreve-lo = escreves o
    Luísa, escreves o resumo da obra?
    Luísa, escreve-lo?
Buscá-lo e busca-lo
Buscá-lo = buscar o
    É preciso ir buscar o André.
    É preciso ir buscá-lo.
Busca-lo = buscas o
    Tu buscas o André?
    Tu busca-lo?
Ajudá-lo e ajuda-lo
Ajudá-lo = ajudar o 
    Vou ajudar o Pedro a estudar.
    Vou ajudá-lo a estudar.
Ajuda-lo = ajudas o
    Tu ajudas o Pedro a estudar?
    Tu ajuda-lo a estudar?
Chamá-lo e chama-lo
Chamá-lo = chamar o
    Você vai chamar o diretor?
    Você vai chamá-lo?
Chama-lo = chamas o
    Paulo, tu chamas o diretor?
    Paulo, tu chama-lo?
Trazê-lo e traze-lo
Trazê-lo = trazer o
    É necessário trazer o pijama?
    É necessário trazê-lo?
Traze-lo = trazes o
    Primo, tu trazes o pijama?
    Primo, tu traze-lo?
Procurá-lo e procura-lo
Procurá-lo = procurar o
    Vamos procurar o livro?
    Vamos procurá-lo?
Procura-lo = procuras o
    Tu procuras o livro?
    Tu procura-lo?
Comprá-lo e compra-lo
Comprá-lo = comprar o
    Quero comprar o bolo hoje.
    Quero comprá-lo hoje.
Compra-lo = compras o
    Tu compras o bolo hoje?
    Tu compra-lo hoje?
     

Fechada aspas obrigado <Professora Flávia Neves>


Terceiro: Eu volto nos meus textos, pois gosto, não por que esta escrito em uma pedra que preciso voltar, afinal, textos na internet são quase como um: Esparecer, sei muito bem o qual crível passa um texto profissional. Então o ato de sentar aqui escrever é um divertimento e não algo de cobrança.

Este senhor que me incomodou com seu comentário bem mestre dos magos. Tinha seus 76 anos (acho) realmente fui à escrivaninha dele e fiz comentários gentis elogiando a narrativa dele. E o dito veio na minha, nem leu meu texto e soltou a sua metralhadora oportunista. Um óh. 
Fico bem preocupado com pessoas assim, a vida não lhe trouxe respeito e incentivo? Eu preciso ser perfeito de primeira para agradar uma pessoa que nem leu meu texto? Realmente é pequinez da parte de uma pessoa que precisa ter um legado a se deixar, o dele pra mim foi. Não o visite mais. O print censurado do caso. Eu como sou blogueirinho não poderia perder a oportunidade de escrever sobre ele. Pois sim, me incomodou. Li o perfil do dito, eu também fiz Letras Espanhol em faculdade pública, e daí?, precisamos ponderar bem nossas palavras ainda mais com outros escritores. Entendo que comentários são digamos uma continuidade do texto, logo cuidado amigos para não "cagar" no texto dos outros, se tiver algo a dizer, aqui há inbox use-o. Obrigado Recanto das letras por colocar moderação nos nossos textos.
Eu escrevo aqui, no blog tenho 3 romances do wattpad, sei que sim, é um erro não gabaritar o português pois nós somos disceminadores da Norma Culta, porém também sou uma pessoa que ama escrever com erros ou acertos sempre escreverei passado a regua amiguinho.... (ó meu Deus escrevi regua sem acento vou morrer. kkkk)

Versão com o print

E quarto para finalizar este pós escrita aqui, um momento que estou expondo o meu eu criativo.

Li e reli o conto do Machado de Assis várias vezes (vou reler novamente se for necessário) Meus textos sempre tendem a ser "rasos" todavia morro de medo de criar barriga por isto sempre moldo para ser rápido o escrito.
No texto molde para o meu. Um senhor especialista em pássaros adentra em uma loja do seu tempo e compra uma espécime, que começa a dialogar com o protagonista. E no final foge. Claro que com a profundidade filosofal de um texto Machado de Assis. Escreveu algo lindo se tiver oportunidade leia o conto que agrega. No meu, como já citei, quis trabalhar esta angústia atual e coletiva que todos estão sentido de viver em isolamento, alguns amplos outros nem tanto, mas todos estamos fora do nosso normal. E para todos os que passeiam e escrevem aqui. Tô cagando para teus erros de Pt me ofereçam um enredo fora da curva que teras o Wal como leitor fiel.
Abraços, fez-se necessário esta explicação pós texto.

Instagram?



Sei que o perfil do Recanto das letras é mais de aposentado coisa e tal, agora também estou fazendo meus posts no Instagram, no print que passei o mouse. Comentei sobre. A máscara escarlate de Edgar Allan poe. (110vius e seis comentários). É muito louco lá, porém existe muitos seres pensantes bem resolvidos que instagranzeiam de plantão. Estou com um pé aqui outro lá. meu perfil <click aqui>

Texto escrito para o Recanto das Letras.

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