Como eu a Conheci

Como eu a Conheci
Waldryano
♦ COMO EU A CONHECI ♦
Sempre gostei do Mar. Içar a âncora e debruçar-me em uma nova aventura. Um coração selvagem e indomável foi o meu. Mas tive que tomar uma decisão. Olho para a minha velha e querida Amélia na sala e sinto uma felicidade.
Em Nova York, hoje, faz muito frio. Nem gosto de olhar para a janela, prefiro não ver a referência de algo que eu amava e deixei para trás, um grande aquário. Olhei para Amélia, que sorriu, como sempre tricotando, desta vez um pulôver. Como eu a amo e não me arrependo da escolha que fiz.
***
— Capitão, capitão! Eles estão atacando.
Era a tripulação da Fênix Negra que estavam nos perseguindo. Mandei uma comitiva negociar, pois o tesouro foi encontrado por nosso navio e o mapa havia sido decifrado por mim, logo, nos pertencia. No entanto, éramos um numero reduzido e até encontrarmos a ilha da garganta cortada tivemos que passar por várias bifurcações. O navio, por conta disso, precisava ser leve e optamos por levar pouca carga e tripulantes, o que nos fez pagar um alto preço. Mas de outro modo não seria possível.
Olhei para o meu fiel amigo ao lado e quis entender como, exatamente, eles descobriram nossa rota e o nosso navio. Era muito estranho.
A estibordo veio mais uma rajada de tiros e com eles piratas adentravam o navio escalando por cordas. Fomos tomados, pelo visto a oferta não foi boa para eles, não quiseram uma parte do nosso tesouro em moedas de ouro, mas exigiram o tesouro por completo.
Empunhei minha espada e lutei bravamente, tentando de todos os modos proteger aquele navio. Depois de rendido, entendi de quem veio a informação da rota e de todo o resto: dele, o meu fiel amigo.
Agora eu era um prisioneiro dentro daquele navio pirata, e foi naquele local inóspito que a conheci.
— Qual é o seu nome?
Ela me olhou. Estava cansada, com as roupas rasgadas e os braços com arranhões. O serviço naquele local era para homens fortes, não para uma bela moça simples e delicada como ela.
— Do que importa um nome se estamos todos mortos?
Fui até ela e prontamente a ajudei.



— Enquanto há vida, haverá sempre esperança.
Veio um carrasco estalando um chicote no chão do convés demonstrando que precisávamos remar. A alimentação era precária e o calor intenso, condições desumanas. Em certo momento, observei que o carrasco dormia, era o momento de agir. Ela me olhou e nossos instintos funcionaram perfeitamente. Apesar da fraqueza, com uma sutileza inexplicável ela retirou a chave da cintura do pirata malvado. Eu a ajudei, pois precisávamos ser rápidos. E assim fomos.
— Vamos pegar um bote tripulável e dar o fora daqui — ela disse, já para fora do porão daquele navio.
Ela estava certa, era o mais sensato a fazer.
— Não, preciso recuperar o meu tesouro!
— Que história de tesouro, rapaz... Você precisa se salvar! Você não conhece estes piratas sanguinários, eles são capazes de tudo...
E ela puxou a minha mão e adentrávamos atrás de alguns barris de rum. A cena era bizarra, pensei em certo momento ser merecida. O meu fiel ajudante, aquele que me traira, estava na prancha caminhando rumo ao mar.
— Pelo amor dos deuses dos mares, não faça isso comigo! Eu te ajudei, disse a rota e onde estava o tesouro.
— O momento é agora — ela alertou. — Vamos pegar um daqueles botes de fuga e zarpar daqui. A propósito, sou Amélia.
Eu precisava ver, o traidor estava sendo encurralado cada vez mais para a ponta daquela prancha de madeira.
— Vamos logo! Você sabe de que são povoadas estas águas não é? Seu amigo não terá muita chance, mas nós teremos. Ou não me chamo Amélia.
Ela era agiu, minha salvadora sabia muito bem como descer aquele bote. Estávamos livres, ambos fugitivos em meio ao mar, e de longe escutei o grito de socorro. Era ele sendo jogado a estibordo, e como Amélia disse, as águas eram profundas e povoadas de tubarões, a cada remada entendia isto, pois as barbatanas eram visíveis.
— Precisamos salva-lo.
— Precisamos nos salvar — ela disse. — Ele fez a escolha sua, não é? Se estava na prancha, coisa boa não deve de ter feito.
Foi triste ver o preço da traição naquelas águas, que torridamente, por instantes, tornaram-se vermelhas. De fato, como disse Amélia, foi mesmo o melhor momento pra uma fuga, pois todos se divertiam distraídos.
— Remamos, senhor...
— Meu nome Enzo.
— Remamos, Senhor Enzo. A propósito, tenho um segredinho para lhe contar.
Ela abriu umas madeiras falsas e embaixo brilhou de modo dourado naquela noite. Era uma quantia considerável de moedas de ouro. O restante? Tive que aprender a domar esta pequena. Remamos até uma ilha deserta, nosso paraíso, onde aprendemos a nos amar. E odiar, por que não?
Quando lá, aprendendo a conviver um com o outro. Ela me contou que existia um lugar, para onde estávamos indo, terras distantes sendo povoadas. A pequena era uma ladra e cansara daquela vida; já eu, um capitão, precisava aprender a comandar um só coração: o dela. Em uma linda manhã fomos resgatados, aquele ouro não nos servia para nada naquela ilha deserta, mas serviu para me tornar o maior bancário daquela cidade, que cresce na velocidade das locomotivas. Meus filhos e netos são pessoas importantes, e Amália acaba de terminar mais um pulôver de um netinho.
Ela olha para o meu semblante, que estava a contemplar aquele aquário. Com o cansaço da vida ela se levanta, os seus olhos são exatamente iguais aos dos que a conheci.
— Vamos meu velho, você fez a melhor escolha. Nossos filhos e netos são tudo que temos, e você e eu aprendemos a domar nossos instintos aventureiros.
O netinho vem me pedir a benção para ir dormir.
— Vovô, vovô! Conta mais uma vez aquela história de piratas.
— De novo? — disse Amélia. — Sejam rápidos!
Eu contava para ele, demonstrava meus sentimentos reais, a história parecia fantasia, mas era real.
— Vovô, como que pode ter acontecido isso?
— Quer saber um segredo — cheguei bem pertinho dele. — Eu e a vovó estávamos lá.
♦ RUMO AO MAR ♦
A neve que estava ameaçando a cair finalmente deixa as ruas desta grande cidade alvas.
— Vó, o vovô não chegou ainda? — questionava meu netinho lindo, que estava embaixo das cobertas esperando Enzo para contar-lhe uma história para ele dormir.
— Não chegou querido, acho melhor você dormir.
Apaguei a vela e fui ao meu quarto, queria tricotar ainda hoje um cachecol para outra netinha. Fico a escutar os movimentos no quarto do meu neto. Vou a cama dele dou-lhe um beijo.
— Vó, conta uma historinha, eu não consigo dormir...
Será que eu devo contar a minha história a ele?
Acendi um castiçal de velas e peguei da gaveta uma moeda, que guardara de recordação. Por que não contar? Ele é uma criança, logo esquece.
— Está vendo esta moeda? — Ele olha com fixação. Brilhava, pois era ouro. Confirmando-me com um sim.
Coloquei na sua orelha e a fiz sumir. A criança ficou surpreendida, e fiz a moeda reaparecer na outra orelha.
— Nossa, vó! Isso é uma mágica?
— Não, querido neto, é a agilidade. — Por mais que agora a minha agilidade se resuma a tricotar, mãos inquietas precisam de uma ocupação.
— Vovó, conte a sua história, como o vovô contou. Conta. Conta, conta!
— Será?
Os olhos dele vibravam, queria saber a minha verdadeira história. Eu precisava contar, pois a idade já era avançada e os olhos já cansado, e estava naquele quarto o meu querido netinho querendo ouvir e o Enzo que não chegava.
— Então sente-se na cama, pois a história é muito legal. Contarei como eu me tornei uma tripulante do Fênix Negra.
***
— Amélia, alimente-se bem, pois o teu noivo não gosta de osso — dizia a minha mãe colocando a sopa naquela cumbuca de madeira.
Morávamos na Europa, em uma cidade portuária: Lisboa. Nossa função era fabricar botes. O meu futuro já estava traçado: casar-me com o açougueiro da vila. A idade já estava próxima, e o meu desespero também.
Sempre admirava àquela imensidão do mar; sentia que ele me chamava. Todas as vezes que passeava com a minha irmã era assim, sonhava em desbravar aquela imensidão. Agora passeávamos por uma feira de frutas, eu e ela.
— Ainda bem que o seu casamento esta chegando, Amélia. Irá casar com o melhor açougueiro da cidade!
Ela contava e me lembrava daquele ser repugnante, gordo, grande, que fedia a carne. Eu poderia até ter dinheiro, mas teria de suportar um balcão de açougue, e um cheiro fedido a vida toda. Não! Se pudesse escolher, queria cheirar a peixe em uma embarcação.
— Por que é assim? — disse para ela, mordiscando uma maça.
— Você não toma jeito. — Ela me olhou surpresa. — Tem que pagar pela maçã.
Eu continuei a mordiscar e não me importei com a repreensão dela, minhas mãos tinham vontade própria. Por que eu deveria de me casar com quem meus pais querem? Não posso escolher alguém, e não posso viajar e desbravar este mundo?
— Olhe! — Mais um navio saía do porto adiante. — Isto sim que é vida! Viajar conhecer lugares novos. Você já ouviu falar que há lugares novinhos do outro lado deste mar?
— Pare de sonhar e aceite de bom grado a vida que Deus lhe deu...
— Fale para a mãe que vou passear e já volto pra casa. Diga qualquer coisa, que fui comprar cordas... Coisas do tipo.
Minha irmã me olhou e concordou. Sabia que era voto vencido. Eu fui ao porto, sentia a água batendo nos diques e também aquela sensação de maresia. Algo aconteceu, observei uma movimentação estranha, era umas pessoas mal encaradas, marinheiros sendo recrutados.


— Eles estavam indo para uma taverna. — Compreendi. Peguei um cachecol preto que vi em um varal e um chapéu que observei nas redondezas, e estava preparada para assuntar, foi o que fiz.

Era no centro daquele lugar que cheirava mal, e bastante empoeirado, que observei o que me pareceu um Pirata. Tinha uma fisionomia horrorosa, no entanto era respeitado pelos demais.
— Vamos sair hoje à noite com o Fênix Negra, tenho a informação que um certo Capitão Enzo decifrou o mapa do tesouro da ilha da Garganta Cortada.
Um marujo que ainda não tinha sido recrutado disse:
— Esse tesouro não passa de uma lenda.
O Pirata que parecia ser o chefe daqueles bandidos chegou de modo assustador nas orelhas do marujo atrevido.
— Você esta me chamando de mentiroso? — O jovem rapaz ficou bastante assustado, sentiu que as calças estavam aquecendo e veio o liquido morno, que fizeram todos darem risada.
O Capitão pirata pegou-o pelo pescoço e ele, desesperado, tentava se soltar. Depois o Capitão soltou-o dando uma gargalhada.
— Leve-o para descascar batatas!
Quando dei por mim, eu já estava no meio daqueles recrutados, pigarreava, e abaixava o chapéu, a minha mão fez a limpa de vários bolsos. Era a chance de me livrar de um casamento arranjado.
Com os piratas daquele navio, tentava disfarçar de todos os modos a minha condição de mulher, tentava desenhar uma barba mal feita, colocar enchimentos nas calças, e principalmente acostumar com o navio. Vomitava, entregando a minha condição de estranha. Por várias semanas tentei de todos os modos disfarçar.
Um dia um pirata qualquer pegou implicância comigo, me chamava de mariquinhas. Acabei como o marujo das batatas. Navegamos e em certo momento descobriram a minha condição de mulher. Eu era uma moça bela, então me levaram para o Pirata chefe, tão asqueroso quanto o açougueiro. Ele que não pensasse que eu iria me deitar com ele coisa do tipo. Juntei o meu melhor catarro, aquele bem esverdeado, e cuspi na cara dele.
Foi o suficiente para ser presa, ajudava na remada daquele navio com mais uns escravos que não falavam a mesma língua que eu.
— Você acha aqui que a Amélia, não conseguiria se soltar daqueles grilhões?
Toda a noite eu saia, e descobri um grande tesouro em moedas. Roubava todos os dias um pouquinho para não chamar a atenção e coloquei em um bote tripulável. Voltava para a minha prisão e esperava pacientemente o momento exato de fugir daquele lugar.
Quando vi, meu netinho já estava dormindo, precisava contar a história, nem que fosse pra mim mesma, peguei a moeda e coloquei na caixinha em cima da estante, enfiei as agulhas no novelo e fui deitar, demorou um pouco chegou o meu amado Enzo, puxei-lhe a orelha.
— Eu não disse que aquela história de prancha, sangue tórrido no mar, assustaria nosso netinho? Hoje ele não conseguia dormir! — Ele me abraçou.
— Calma ele não é mais um bebê, ele será um aventureiro igual a nós!
♦ DE VOLTA AO MAR ♦
Estava tudo certo para a nossa Viagem de férias. Iríamos à Lisboa, pois Amélia queria ver as irmãs.. E eu? Queria ver o mar novamente. Um Capitão aposentado e uma ladra, que se tornou a melhor mulher deste mundo, cinquenta anos juntos. No entanto, a lacuna existia, ela queria voltar a sua terrinha. E eu? Queria também voltar a minha Inglaterra, visitar. Mas os negócios de um bancário na cidade de Nova York, não param. E as minhas férias eu poderiam prolongar? Deixei tudo nas mãos dos filhos.
Agora viajar. Enzo e Amélia de volta ao mar!
— Tudo pronto Amélia?
— Sim, vou levar isto, isto e isto... Vários novelos de lã e algumas agulhas também.
— Ah claro, minha recordação. — Foi até a caixa em cima da estante e pegou a única moeda que sobrara do nosso tesouro, que nos fez ricos naquela cidade.
Estávamos saindo. Cortava o meu coração não o leva-lo ao mar. O meu netinho sempre grudado conosco, mas foi à decisão dos pais, não poderíamos interferir.
***
— Tem certeza que a viu? — disse um senhor de meia idade a uma jovem bela de cabelos escuros, com uma roupa bem colada ao corpo que lembrava escamas de peixe, só que era uma espécie de tecido que parecia couro.
— Sim pai, está nesta casa, nossa investigação chegou a ela. A senhora a guarda bem aqui.
Aquela moça estava observando a casa através de um binóculo, nem a neve deixava-a desatenta. Certo dia, quando a senhora contava uma história ao neto, ela observou. Era a moeda que tanto procurava. A última moeda que precisava.
Foi a um banquinho subiu para pegar na estante, onde viu a caixinha. Ao abri-la, a surpresa... Estava vazia!
— Não pode ser! Estava aqui eu juro, pai.
Ela colocou as mãos na cabeça, parecia transtornada. Olhou para a mesa e um recado estava escrito num papel:
"Fomos viajar, caso mude de ideia embarcaremos às nove horas no porto de Manhattan."
Pegou o papel e amassou. Precisava se apressar. Olhou para o lado, viu vários peixes no aquário. 
— Vamos leva-los, não merecem ficar aqui. — Colocou os em um jarro que outrora fora de suco e saiu com aquele senhor.
No navio, o velho capitão fez questão de conhecer a tripulação, e apesar de viajarem na primeira classe daquele navio de cruzeiro, aonde iriam para Lisboa, Enzo quis conhecer o capitão do navio e logo a amizade
Amélia olhava para o final do porto na esperança de o vê-lo.
Ela estava feliz, pois iria ver as irmãs com as quais se correspondia por carta, mas triste, pois duas coisas já lhe sucediam: Deixar seu querido netinho que amava o mar e não poderia ir na viajem; e também aquela ânsia que não conseguia controlar.
— Ele apareceu!
Gritou Amélia, o Velho Enzo deixa o capitão de lado e desce para recebê-lo.
— Não teve jeito, pai, leve-o. Não vou tirar esta chance da vida dele de conhecer o mar!
— Oba, oba! — disse o netinho empolgado e Feliz.
Já há algumas milhas de distância, o velho Enzo explicava ao neto sobre aquela rota que estavam fazendo.
— Olha, em tempos passados, foi exatamente esta rota que fiz com o meu navio Falcão.
Já aguçava a imaginação do neto, o desenho era bem detalhado.
***
A moça desamassou o papel e perguntou ao local de informações sobre tal navio, disseram lhe que já havia partido.
— Droga, chegamos tarde! — exclamaram.
— Pai, precisamos daquela moeda, e hoje.
— Calma filha, vamos conseguir encontrá-los.
Os dois saíram da vista de populares. A moça lançou os peixinhos ao mar.
— Crueldade com vocês, companheiros, ficar aprisionados — disse ela aos peixes. — Nadem, sintam a liberdade.
Logo após ela tocou os pés no mar, então a calda surgiu. E ele, quando tocou no mar, a calda e o tridente se transformaram.
— Precisamos ser rápidos, Selena, hoje é o nosso último dia!
— Sim, pai! A nossa existência depende daquela moeda!
***
— O dia que o navio pirata Fênix Negra te atacou, vovô?
— Garoto esperto — disse ele olhando para o neto.
Amélia estava um pouco indisposta, agora participava da conversa. Chamou o neto para ver os golfinhos e contava a ele que a viagem seria de meses, precisava ter paciência, pois iriam conhecer um lugar maravilhoso: A Europa.
O avô sempre o arrastava e contava sobre os locais daquela rota. Certo dia o avô chegou e falou ao neto:
— Estamos muito perto da ilha da Garganta Cortada, o lugar onde encontrei o tesouro.
— Vovô, o que o Senhor fez com tantas moedas de ouro, quando chegou à Nova York?
— Na verdade, somente uma moeda do meu tesouro me restou, o restante era tesouros que a sua avó conquistara no Fênix Negra.
— Esta? — Mostrou ao avô a moeda e nela havia uma insígnia: Uma sereia.
— Bem esta! Não era para estar nas coisas da sua avó?
— Minhas mãos também são rápidas, vovô — disse o neto.
Os dois foram à proa do navio. Começaram a olhar ao horizonte, a noite estava chegando e um estranho nevoeiro também. A tripulação em sua imensa maioria estava no interior da embarcação.
— Muito estranho este nevoeiro — disse Amélia ao chegar. — Entrem, e principalmente você, pequeno, sabe muito bem que pode pegar um resfriado.
Ao horizonte, três golfinhos deram um pulo na água, mostrando suas caldas. O netinho ficou olhando fixamente aquilo. Depois, algo que ele não sabia precisar também pulou mostrando a cauda. O navio começou a balançar.
— O que é aquilo? — gritou o netinho.
O avô já ouvira falar daquele nevoeiro estranho. Amélia também. Aquela era uma sereia e estava começando a entoar uma canção. Enzo a reconheceu e sabia perfeitamente o que aconteceria.
— Depressa, fechem os ouvidos.
— Mas vô, é tão linda esta canção — o netinho falou.
— Rápido, faça o que o seu avô está mandando — inquietou-se Amélia.
O canto da sereia deixou toda a tripulação adormecida. Os dois "peixes" se tornaram seres humanos e estavam subindo a proa do navio.
♦ UMA IMPORTANTE DECISÃO ♦
- Cinquenta Anos Atrás-
As ondas batiam no rochedo, eu estava com ela, abraçando-a, olhando o pôr do sol.
— Peço que veja mais uma vez, Selena, mais uma vezinha o mapa.
Já havia olhado aquele mapa e precisava ficar calada, era algo muito importante ao meu povo e não poderia contar.
Enamorei-me por aquele rapaz: Um Capitão.
— Só mais uma vez! — Ele olhou-me com aqueles olhos que penetravam o meu ser.
— Olhe, Enzo... Este mapa é uma canção.
— Uma canção?
— Sim. Veja este relevo. — O capitão começava a expor o mapa a linhas imaginárias e parecia mesmo uma partitura escondida.
Ela cantou. Era uma canção antiga do reino de Atlantis. Ele escutou maravilhado.
— Eu não conheço o final, pois é um dialeto que nunca ouvi falar.
O Capitão sabia da condição de Selena — ser uma sereia —, mas gostava dela e todos os dias, ao entardecer, encontrava com a sua namorada. Certo dia ganhou em uma aposta de cartas o mapa de um tesouro indecifrável. No meio daquele mapa havia desenhado uma moeda de sereia.
Agora namorava uma sereia, tanto tentou que aprendera a canção e cantarolava pra lá e pra cá, no navio, no convés... A letra era meio estranha, sem sentido. O namoro com Selena precisou ser interrompido, pois o Capitão estava sendo pressionado pelos pais a noivar com uma jovem burguesa.
— Como explicar que me enamorei por uma sereia?
Terminaram, cortou o coração de Selena, nunca superou tal decepção. Ao Capitão, o noivado não deu muito certo, logo ficou só. Selena o via na distância do oceano. E daquele namoro de final de verão restou uma canção.
— Uma canção?
Como um passe de mágica o Capitão entendeu que era uma coordenada. Só que era estranho. O local parecia não existir. Era além de uma enseada. Ele tomou uma pequena embarcação e foi.
Uma neblina, um local até então desconhecido. Os tripulantes ficaram estarrecidos. O capitão passou e apareceu a ilha da Garganta cortada, como diziam as lendas. Ele continuou a cantarolar e com uma bússola em mãos ia guiando-se pelo instinto.
Era dentro de uma gruta. Ele entendeu que o tesouro estaria naquele local, dentro de uma lagoa. A juventude e a prática lhe fizeram chegar sem problema nas profundezas daquele lago e um reflexo dourado o instigou a ir além.
— Um baú com magníficas moedas de ouro com a insígnia de uma sereia!
***
O pai de Selena a ouviu cantarolar a canção proibida.
— Onde você ouviu esta canção?
Ela se fez de desentendida, fazendo graça com a cauda.
— Não sei, ouvi por aí.
Pressionada, ela confessou tudo.
— Não pode ser! Você cantou até o final para ele?
Ela lembrou que não sabia o dialeto antigo.
— Você não sabe, pois ninguém deveria saber.
O final dizia:
♪ Retirando o nosso tesouro, a chave será desfeita, um mundo será aos pouco destruído, acabando com a nação eleita. ♪
O pai de Selena sentiu uma pontada no coração. Olhou para o lado, e viu uma sereia sumir.
— Não pode ser! O tesouro foi descoberto! Ele não pode sair da Ilha da Garganta cortada.
Ambos nadaram com a maior velocidade permitida, foram averiguar. Realmente tinha sido levado. As moedas brilhavam de modo estranho na presença de sereias. E era este instinto que os fizeram chegar ao navio Fênix Negra.
Ela cantou e todos os tripulantes do navio adormeceram. O Tesouro estava recuperado e o mundo de Atlantis salvo. Mas das mil moedas deste tesouro faltava uma...
***
Estava a subir ao navio, ela que outrora foi meu primeiro amor, Selena. Será que ela me reconheceria já velho?
Os dois novos tripulantes daquele navio disseram:
— Vocês tem algo que nos pertence.
Ela o olhava tentando lembrar.
— É você?
— Sim, sou eu: Selena.
Amélia olhou a cena sem compreender do que se tratava.
—Você é uma sereia? — perguntou o neto.
Os dois seres do mar olharam para o neto.
— Precisamos da sua ajuda, capitão Enzo. — O pai de Selena fez um gesto com o tridente e a moeda saiu flutuando do bolso do neto, indo até a mão daquele senhor que parecia sério, ou seja, lhe remetiam medo.
— Precisamos que você coloque o tesouro exatamente onde o encontrou. O tesouro da garganta cortada deve ficar onde está. Todas as moedas, inclusive esta.
O tesouro que fez Enzo e Amélia se tornarem pessoas bem sucedida não provinha da ilha da garganta cortada, era outro. Amélia recolhera aos poucos alguns tesouros e escondia na embarcação, esperando o momento exato de fugir daquele navio. Do tesouro, só restou ao Capitão uma moeda, que fez com que, aos poucos, toda a população de Atlantis sumisse. Restando apenas o Rei e a princesa daquele local mágico.
— A minha filha foi generosa e te mostrou uma canção antiga, você foi perspicaz e descobriu como chegar ao nosso elo com este mundo. No entanto, minha filha não lhe contou que o tesouro nunca poderia sair da ilha.
— Enzo, volte e devolva onde tirou o tesouro.
Amélia consentiu, mesmo não gostando muito da ideia se compadeceu da situação. O neto entusiasmado com a ideia de aventura, falou:
— Posso ir junto? Posso? Posso?
— Tudo bem — respondeu o pai de Selena. — Só que o seu avô voltará a ser jovem, com a mesma idade que tinha quando retirou o tesouro, é necessário, pois são águas profundas. E você, se quiser acompanha-lo, será jovem também.
— Oba! — gritou o menino.
— Podem ir, eu cuido desses dorminhocos aqui. Tenho bastante linha para tricotar — disse a avó Amélia.
Ao passe do tridente, ambos estavam jovens novamente, navegaram com o pequeno navio Falcão que permanecia naquele local esquecido. Deu tempo do Capitão mostrar o navio pirata Fênix Negra e a tripulação, todos estavam dormindo.
— Era mesmo verdade, vô!
E conseguiram colocar o baú com as moedas naquele fundo de lagoa, dentro da gruta.
Ao terminar, Selena pegou nas mãos do Capitão Enzo e disse:
— Fique, eu lhe imploro! Vivamos para sempre aqui. Eu o amo!
E, novamente, o capitão teve que tomar uma importante decisão...
Conto na temática, Fantasia, 4200 palavras




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